Artigo: O que é Literatura?

A definição aristotélica de que “Literatura é a arte da palavra” há muito nos faz pensar de que “palavra” estamos falando. A quem foi dado o “direito à palavra”? Quando alguém não cumpre o combinado, logo se diz que não é “uma pessoa de palavra” ou, se cumpre, afirma-se de forma contundente “esta tem palavra”. Comumente, ouvimos essas e outras frases sem nos aprofundarmos nos vários significados e representações sociais que o termo “palavra” exprime, inclusive, na literatura.
Se a palavra sedimenta o texto literário como parte de um processo de comunicação subjetiva, carregada de sentido, tanto figurativo quanto social, é preciso compreender que não podemos, hoje, falar em “literatura”, mas, sim, em “literaturas”. Adjetivar a literatura nem sempre incorre em sua pejorização, muitas vezes, se faz necessário o ato à medida que pode a isso estar se querendo visibilizar, validar, resgatar, manter, compartilhar e dialogizar com outras literaturas canonizadas, que possuem fortunas críticas.
É preciso rever constantemente conceitos como o de literatura. Isso porque, assim como a palavra é viva e mutável, mediante o contexto de fala, de escrita, e do ponto de vista de quem fala e para quem, a literatura que dela faz uso primal não pode ser estática. A literatura carrega consigo as particularidades dos sujeitos que escrevem, abordam, criam, recriam pessoas, paisagens, ambientes, tempos, memórias, culturas, medos, dores, anseios, desejos, sentimentos humanos individuais e, por isso, universais.
À literatura cabe o estranhamento da palavra. A via torta, desregrada, o que está oculto. Ao leitor cabe o espanto, o deslocar-se, a infração, o sacudir a poeira das palavras ou lhes dar novas roupagens, mais ainda dos que supõem fornecer aqueles que as escrevem. Se o mundo está em processo de mudança, todas as categorias humanas estão e se tem algo que é unânime sobre o conceito de literatura é que é uma atividade profundamente humana.

(CB. Rio, 02/08/20)

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Cintia Barreto - Doutora em Literatura Brasileira Cintia Barreto