Artigo: DO EU - Resenha sobre o livro "Alameda Santos" de Ivana Arruda Leite

Publicado originalmente em

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DO EU
Alameda Santos, de Ivana Arruda Leite

Cintia Barreto (Doutora em Literatura Brasileira - UFRJ)

Ivana Arruda Leite estreou na literatura em 1997, com a
coletânea de contos Histórias da mulher do fim do século. Ainda na
chave das narrativas curtas que tematizam a mulher e seus fracassos,
sobretudo amorosos, lançou o volume Ao homem que não me
quis (2005). Quatro anos depois publicou seu primeiro romance,
Hotel Novo Mundo, no qual se hospedam prostitutas, homossexuais,
artistas em decadência, pais de santo, crianças adoentadas, mulheres
mal-amadas e soropositivos.
Alameda Santos (2010) também traz personagens à margem.
O enredo é simples: de 1984 a 1992, a narradora-protagonista
grava, a cada final de ano, suas impressões em uma fita cassete. No
entanto, como acontece com outros textos da autora, é difícil categorizar
esse segundo romance. Seria um livro de memórias? Um
híbrido de fato e ficção? Um relato atormentado? Sabemos que instiga
e provoca, combina o cômico e o sério, quebra continuamente
as expectativas – e nisso reside um dos trunfos de Ivana.
Os relatos deixam entrever o contexto histórico. A aids
surge como o mal de toda uma geração, canções conhecidas pontuam
os humores da protagonista, flashes de telenovelas se fazem
presentes e a calamidade política potencializa a agonia: “Hoje,
por exemplo, se eu fosse contar as desgraças que me aconteceram
este ano, eu começaria pela maior delas: o prefeito agora é o Jânio
Quadros. Quer desgraça maior? Pois tem. O Tancredo Neves, o presidente
que ia redemocratizar o país, morreu antes de tomar posse.
Quer mais? O presidente da República é o José Sarney e a inflação
esse ano foi de 240%. Entendeu agora por que que não dá mais pra
ficar pensando nos problemas do meu mundinho interior?” (p. 38).
Desde o interior claustrofóbico das casas até os bares e
espaços públicos, passando pelas gravações do monólogo da narradora,
o discurso permanece espiral em que as tensões psicológicas,
familiares, sociais e amorosas ressoam e contribuem para a produção
de uma narrativa a um só tempo dolorosa e sarcástica, na qual
se veem descortinados desde o machismo até o padecer afetivo.
Segundo Foucault, o “discurso nada mais é do que a reverberação
de uma verdade nascendo diante de seus próprios olhos”. O
discurso amoroso dilacerado é a espinha dorsal desse romance feito
de casos e descasos, cuja protagonista se vê envolvida com Charles,
que é casado com Tereza: “Já que essa é uma fita-testamento, vou
aproveitar pra mandar alguns recados. Charles, querido, você foi
uma grande paixão, a maior de todas, mas passou. Hoje, pra mim,
você tá morto e acabado” (p. 23). A difícil relação é feita de idas
e vindas, levando a memória da narradora a ativar e desativar as
sensações desencadeadas pelo homem que tanto a faz sofrer.
A história possibilita que acompanhemos outros dramas,
como o ostracismo vivido no campo profissional e o complicado convívio
com a filha. À sombra criada pela aids somam-se os problemas
com as drogas. A contrapartida se apresenta no comportamento,
onde a homo e a bissexualidade são encaradas com naturalidade.

Surge principalmente na liberdade da linguagem, marcada por uma
fluidez que, condimentada por expressões coloquiais e palavrões,
condiz perfeitamente com a temática.
O livro fala de perdas – de amigos, amores, empregos –, em
gangorra na qual só a narradora permanece. Às vezes, para ficar
imóvel enquanto pessoas em volta são atingidas pelas vicissitudes.
Noutras, para se movimentar por obra de terceiros, como quando é
obrigada pela mãe a fazer concurso. Há ainda as situações desconcertantes
em que se mete por conta própria, como na ocasião em
que, já com quarenta anos de idade, escala um muro para encontrar
seu grande amor. A completar o espelho patético em que a personagem
central se vê cotidianamente ou se revê na retrospectiva anual,
lá está o álcool.
A solidão e a permanência à margem do princípio do prazer
levam-na a pensar na alameda que dá título ao livro como a rua em
que se jogará do oitavo andar. Assim, ao nos conduzir pelas veredas
e dutos por onde circulam paixões, tropeços, anseios e desventuras
da vida, o segundo romance de Ivana tem um efeito inegavelmente
humanizador. O melhor é que a sátira que o perpassa lembra a advertência
de Freud, para quem o mundo parece perigoso, mas “não passa
de um jogo de crianças, digno de que sobre ele se faça uma pilhéria!”.
É, portanto, com as tintas do humor daqueles que conseguem rir de
seus próprios problemas que a narrativa pode, entre múltiplas possibilidades,
ser assimilada como a história do eu.

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Cintia Barreto - Doutora em Literatura Brasileira Cintia Barreto